{"id":110,"date":"2013-05-14T08:59:00","date_gmt":"2013-05-14T08:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/2013\/05\/14\/diario-lucido\/"},"modified":"2018-08-07T17:50:25","modified_gmt":"2018-08-07T17:50:25","slug":"diario-lucido","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/2013\/05\/14\/diario-lucido\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio l\u00facido"},"content":{"rendered":"<table align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" class=\"tr-caption-container\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-5fmrUmU_d-M\/UZH8MA1qs5I\/AAAAAAAAAYg\/EPJyymsEFAk\/s1600\/DSC05463.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"640\" src=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/DSC05463.jpg\" width=\"428\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"tr-caption\" style=\"text-align: center;\">Feuerhaus, Zaha Hadid&nbsp;\u00a9 Susana dos Santos<\/p>\n<p><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nA minha vida, trag\u00e9dia ca\u00edda sob a pateada dos anjos e de que s\u00f3 o primeiro acto se representou.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Amigos, nenhum. S\u00f3 uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O pr\u00e9mio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim h\u00e1 uma aur\u00e9ola de frieza, um halo de gelo que repele os outros. Ainda n\u00e3o consegui n\u00e3o sofrer com a minha solid\u00e3o. T\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 obter aquela distin\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito que permita ao isolamento ser um repouso sem ang\u00fastia.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nunca dei cr\u00e9dito \u00e0 amizade que me mostraram, como o n\u00e3o teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que ali\u00e1s, seria imposs\u00edvel. Embora nunca tivesse ilus\u00f5es a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilus\u00f5es com eles \u2014 t\u00e3o complexo e subtil \u00e9 o meu destino de sofrer.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nunca duvidei que todos me tra\u00edssem; e pasmei sempre quando me tra\u00edram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como nunca descobri em mim qualidades que atra\u00edssem algu\u00e9m, nunca pude acreditar que algu\u00e9m se sentisse atra\u00eddo por mim. A opini\u00e3o seria de uma mod\u00e9stia estulta, se factos sobre factos \u2014 aqueles inesperados factos que eu esperava \u2014 a n\u00e3o viessem confirmar sempre.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nem posso conceber que me estimem por compaix\u00e3o, porque, embora fisicamente desajeitado e inaceit\u00e1vel, n\u00e3o tenho aquele grau de amarfanhamento org\u00e2nico com que entre na \u00f3rbita da compaix\u00e3o alheia, nem mesmo aquela simpatia que a atrai quando ela n\u00e3o seja patentemente merecida; e para o que em mim merece piedade, n\u00e3o a pode haver, porque nunca h\u00e1 piedade para os aleijados do esp\u00edrito. De modo que ca\u00ed naquele centro de gravidade do desd\u00e9m alheio, em que n\u00e3o me inclino para a simpatia de ningu\u00e9m.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Toda a minha vida tem sido querer adaptar-me a isto sem lhe sentir demasiadamente a crueza e a abjec\u00e7\u00e3o.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 preciso certa coragem intelectual para um indiv\u00edduo reconhecer destemidamente que n\u00e3o passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade; mas \u00e9 preciso ainda mais coragem de esp\u00edrito para, reconhecido isso, criar uma adapta\u00e7\u00e3o perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resigna\u00e7\u00e3o, sem gesto algum, ou esbo\u00e7o de gesto, a maldi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica que a Natureza lhe imp\u00f4s. Querer que n\u00e3o sofra com isso, \u00e9 querer de mais, porque n\u00e3o cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o sofrer com ele.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conceber-me de fora foi a minha desgra\u00e7a \u2014 a desgra\u00e7a para a minha felicidade. Vi-me como os outros me v\u00eaem, e passei a desprezar-me \u2014 n\u00e3o tanto porque reconhecesse em mim uma tal ordem de qualidades que eu por elas merecesse desprezo, mas porque passei a ver-me como os outros me v\u00eaem e a sentir um desprezo qualquer que eles por mim sentem. Sofri a humilha\u00e7\u00e3o de me conhecer. Como este calv\u00e1rio n\u00e3o tem nobreza, nem ressurrei\u00e7\u00e3o dias depois, eu n\u00e3o pude sen\u00e3o sofrer com o ign\u00f3bil disto.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Compreendi que era imposs\u00edvel a algu\u00e9m amar-me, a n\u00e3o ser que lhe faltasse de todo o senso est\u00e9tico \u2014 e ent\u00e3o eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo n\u00e3o podia passar de um capricho da indiferen\u00e7a alheia.&nbsp;<br style=\"margin: 0px; padding: 0px;\" \/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver claro em n\u00f3s e em como os outros nos v\u00eaem! Ver esta verdade frente a frente! E no fim o grito de Cristo no Calv\u00e1rio, quando viu, frente a frente, a sua verdade: Senhor, senhor, por que me abandonaste?<\/p>\n<p>Bernardo Soares &#8211; Livro do Desassossego<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feuerhaus, Zaha Hadid&nbsp;\u00a9 Susana dos Santos A minha vida, trag\u00e9dia ca\u00edda sob a pateada dos anjos e de que s\u00f3 o primeiro acto se representou.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Amigos, nenhum. S\u00f3 uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O &hellip; <a href=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/2013\/05\/14\/diario-lucido\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Di\u00e1rio l\u00facido<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":405,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110"}],"collection":[{"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":406,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110\/revisions\/406"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/405"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}