{"id":61,"date":"2015-10-20T09:11:00","date_gmt":"2015-10-20T09:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/10\/20\/este-mundo-da-injustica-globalizada\/"},"modified":"2018-08-07T17:50:23","modified_gmt":"2018-08-07T17:50:23","slug":"este-mundo-da-injustica-globalizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/10\/20\/este-mundo-da-injustica-globalizada\/","title":{"rendered":"Este mundo da injusti\u00e7a globalizada"},"content":{"rendered":"<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\nTexto lido na cerim\u00f4nia de encerramento do F\u00f3rum Social Mundial 2002<\/p>\n<p><\/p>\n<table align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" class=\"tr-caption-container\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-qcJ2O9jKSxk\/ViYFJzrkBRI\/AAAAAAAAB1k\/tDzlAXomz1M\/s1600\/k_o_goetz_i-elemente.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"405\" src=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/k_o_goetz_i-elemente.jpg\" width=\"640\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"tr-caption\" style=\"text-align: center;\">\u201eI-Elemente I\u201c, 2010.&nbsp;Karl Otto G\u00f6tz<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&#8220;Come\u00e7arei por vos contar em brev\u00edssimas palavras um facto not\u00e1vel da vida camponesa ocorrido numa<br \/>\naldeia dos arredores de Floren\u00e7a h\u00e1 mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa aten\u00e7\u00e3o<br \/>\npara este importante acontecimento hist\u00f3rico porque, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 corrente, a li\u00e7\u00e3o moral<br \/>\nextra\u00edvel do epis\u00f3dio n\u00e3o ter\u00e1 de esperar o fim do relato, saltar-vos-\u00e1 ao rosto n\u00e3o tarda.<\/p><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\nEstavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e<br \/>\ncuidados, quando de s\u00fabito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de<br \/>\nalgo sucedido no s\u00e9culo XVI) os sinos tocavam v\u00e1rias vezes ao longo do dia, e por esse lado n\u00e3o deveria<br \/>\nhaver motivo de estranheza, por\u00e9m aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era<br \/>\nsurpreendente, uma vez que n\u00e3o constava que algu\u00e9m da aldeia se encontrasse em vias de passamento.<br \/>\nSa\u00edram portanto as mulheres \u00e0 rua, juntaram-se as crian\u00e7as, deixaram os homens as lavouras e os<br \/>\nmesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, \u00e0 espera de que lhes dissessem a<br \/>\nquem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes<br \/>\ndepois a porta abria-se e um campon\u00eas aparecia no limiar. Ora, n\u00e3o sendo este o homem encarregado de<br \/>\ntocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o<br \/>\nsineiro e quem era o morto. &#8220;O sineiro n\u00e3o est\u00e1 aqui, eu \u00e9 que toquei o sino&#8221;, foi a resposta do campon\u00eas.<br \/>\n&#8220;Mas ent\u00e3o n\u00e3o morreu ningu\u00e9m?&#8221;, tornaram os vizinhos, e o campon\u00eas respondeu: &#8220;Ningu\u00e9m que<br \/>\ntivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justi\u00e7a porque a Justi\u00e7a est\u00e1 morta.&#8221;\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nQue acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marqu\u00eas sem<br \/>\nescr\u00fapulos) andava desde h\u00e1 tempos a mudar de s\u00edtio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os<br \/>\npara dentro da pequena parcela do campon\u00eas, mais e mais reduzida a cada avan\u00e7ada. O lesado tinha<br \/>\ncome\u00e7ado por protestar e reclamar, depois implorou compaix\u00e3o, e finalmente resolveu queixar-se \u00e0s<br \/>\nautoridades e acolher-se \u00e0 protec\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Tudo sem resultado, a expolia\u00e7\u00e3o continuou. Ent\u00e3o,\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 4\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\ndesesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem<br \/>\nsempre nela viveu) a morte da Justi\u00e7a. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indigna\u00e7\u00e3o lograria<br \/>\ncomover e p\u00f4r a tocar todos os sinos do universo, sem diferen\u00e7a de ra\u00e7as, credos e costumes, que todos<br \/>\neles, sem excep\u00e7\u00e3o, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justi\u00e7a, e n\u00e3o se calariam at\u00e9 que<br \/>\nela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade,<br \/>\nsaltando por cima das fronteiras, lan\u00e7ando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por for\u00e7a haveria de<br \/>\nacordar o mundo adormecido&#8230; N\u00e3o sei o que sucedeu depois, n\u00e3o sei se o bra\u00e7o popular foi ajudar o<br \/>\ncampon\u00eas a repor as estremas nos seus s\u00edtios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justi\u00e7a havia sido<br \/>\ndeclarada defunta, regressaram resignados, de cabe\u00e7a baixa e alma sucumbida, \u00e0 triste vida de todos os<br \/>\ndias. \u00c9 bem certo que a Hist\u00f3ria nunca nos conta tudo&#8230;\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nSuponho ter sido esta a \u00fanica vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma camp\u00e2nula de bronze<br \/>\ninerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justi\u00e7a. Nunca<br \/>\nmais tornou a ouvir-se aquele f\u00fanebre dobre da aldeia de Floren\u00e7a, mas a Justi\u00e7a continuou e continua a<br \/>\nmorrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, \u00e0 porta da<br \/>\nnossa casa, algu\u00e9m a est\u00e1 matando. De cada vez que morre, \u00e9 como se afinal nunca tivesse existido para<br \/>\naqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justi\u00e7a todos temos o direito<br \/>\nde esperar: justi\u00e7a, simplesmente justi\u00e7a. N\u00e3o a que se envolve em t\u00fanicas de teatro e nos confunde com<br \/>\nflores de v\u00e3 ret\u00f3rica judicialista, n\u00e3o a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da<br \/>\nbalan\u00e7a, n\u00e3o a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justi\u00e7a pedestre,<br \/>\numa justi\u00e7a companheira quotidiana dos homens, uma justi\u00e7a para quem o justo seria o mais exacto e<br \/>\nrigoroso sin\u00f3nimo do \u00e9tico, uma justi\u00e7a que chegasse a ser t\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 felicidade do esp\u00edrito<br \/>\ncomo indispens\u00e1vel \u00e0 vida \u00e9 o alimento do corpo. Uma justi\u00e7a exercida pelos tribunais, sem d\u00favida,<br \/>\nsempre que a isso os determinasse a lei, mas tamb\u00e9m, e sobretudo, uma justi\u00e7a que fosse a emana\u00e7\u00e3o<br \/>\nespont\u00e2nea da pr\u00f3pria sociedade em ac\u00e7\u00e3o, uma justi\u00e7a em que se manifestasse, como um inilud\u00edvel<br \/>\nimperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nMas os sinos, felizmente, n\u00e3o tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam tamb\u00e9m para<br \/>\nassinalar as horas do dia e da noite, para chamar \u00e0 festa ou \u00e0 devo\u00e7\u00e3o dos crentes, e houve um tempo, n\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir \u00e0s cat\u00e1strofes, \u00e0s<br \/>\ncheias e aos inc\u00eandios, aos desastres, a qualquer perigo que amea\u00e7asse a comunidade. Hoje, o papel<br \/>\nsocial dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es rituais e o gesto iluminado do<br \/>\ncampon\u00eas de Floren\u00e7a seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso<br \/>\nde pol\u00edcia. Outros e diferentes s\u00e3o os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da<br \/>\nimplanta\u00e7\u00e3o no mundo daquela justi\u00e7a companheira dos homens, daquela justi\u00e7a que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da<br \/>\nfelicidade do esp\u00edrito e at\u00e9, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio alimento<br \/>\ndo corpo. Houvesse essa justi\u00e7a, e nem um s\u00f3 ser humano mais morreria de fome ou de tantas doen\u00e7as<br \/>\nque s\u00e3o cur\u00e1veis para uns, mas n\u00e3o para outros. Houvesse essa justi\u00e7a, e a exist\u00eancia n\u00e3o seria, para mais<br \/>\nde metade da humanidade, a condena\u00e7\u00e3o terr\u00edvel que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja<br \/>\nvoz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo s\u00e3o os m\u00faltiplos movimentos de<br \/>\nresist\u00eancia e ac\u00e7\u00e3o social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justi\u00e7a distributiva e comutativa<br \/>\nque todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justi\u00e7a<br \/>\nprotectora da liberdade e do direito, n\u00e3o de nenhuma das suas nega\u00e7\u00f5es. Tenho dito que para essa justi\u00e7a&nbsp;dispomos j\u00e1 de um c\u00f3digo de aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica ao alcance de qualquer compreens\u00e3o, e que esse c\u00f3digo se<br \/>\nencontra consignado desde h\u00e1 cinquenta anos na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, aquelas<br \/>\ntrinta direitos b\u00e1sicos e essenciais de que hoje s\u00f3 vagamente se fala, quando n\u00e3o sistematicamente se<br \/>\nsilencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, h\u00e1 quatrocentos anos, a<br \/>\npropriedade e a liberdade do campon\u00eas de Floren\u00e7a. E tamb\u00e9m tenho dito que a Declara\u00e7\u00e3o Universal<br \/>\ndos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma v\u00edrgula,<br \/>\npoderia substituir com vantagem, no que respeita a rectid\u00e3o de princ\u00edpios e clareza de objectivos, os<br \/>\nprogramas de todos os partidos pol\u00edticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda,<br \/>\nanquilosados em f\u00f3rmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo<br \/>\nactual, fechando os olhos \u00e0s j\u00e1 evidentes e tem\u00edveis amea\u00e7as que o futuro est\u00e1 a preparar contra aquela<br \/>\ndignidade racional e sens\u00edvel que imagin\u00e1vamos ser a suprema aspira\u00e7\u00e3o dos seres humanos.<br \/>\nAcrescentarei que as mesmas raz\u00f5es que me levam a referir-me nestes termos aos partidos pol\u00edticos em<br \/>\ngeral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequ\u00eancia, ao movimento sindical internacional<br \/>\nno seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o d\u00f3cil e burocratizado sindicalismo que hoje<br \/>\nnos resta \u00e9, em grande parte, respons\u00e1vel pelo adormecimento social decorrente do processo de<br \/>\nglobaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica em curso. N\u00e3o me alegra diz\u00ea-lo, mas n\u00e3o poderia cal\u00e1-lo. E, ainda, se me<br \/>\nautorizam a acrescentar algo da minha lavra particular \u00e0s f\u00e1bulas de La Fontaine, ent\u00e3o direi que, se n\u00e3o<br \/>\ninterviermos a tempo, isto \u00e9, j\u00e1, o rato dos direitos humanos acabar\u00e1 por ser implacavelmente devorado<br \/>\npelo gato da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 5\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\nE a democracia, esse milen\u00e1rio invento de uns atenienses ing\u00e9nuos para quem ela significaria, nas<br \/>\ncircunst\u00e2ncias sociais e pol\u00edticas espec\u00edficas do tempo, e segundo a express\u00e3o consagrada, um governo<br \/>\ndo povo, pelo povo e para o povo? Ou\u00e7o muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa f\u00e9<br \/>\ncomprovada, e a outras que essa apar\u00eancia de benignidade t\u00eam interesse em simular, que, sendo embora<br \/>\numa evid\u00eancia indesment\u00edvel o estado de cat\u00e1strofe em que se encontra a maior parte do planeta, ser\u00e1<br \/>\nprecisamente no quadro de um sistema democr\u00e1tico geral que mais probabilidades teremos de chegar \u00e0<br \/>\nconsecu\u00e7\u00e3o plena ou ao menos satisfat\u00f3ria dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condi\u00e7\u00e3o de que<br \/>\nfosse efectivamente democr\u00e1tico o sistema de governo e de gest\u00e3o da sociedade a que actualmente vimos<br \/>\nchamando democracia. E n\u00e3o o \u00e9. \u00c9 verdade que podemos votar, \u00e9 verdade que podemos, por delega\u00e7\u00e3o<br \/>\nda part\u00edcula de soberania que se nos reconhece como cidad\u00e3os eleitores e normalmente por via partid\u00e1ria,<br \/>\nescolher os nossos representantes no parlamento, \u00e9 verdade, enfim, que da relev\u00e2ncia num\u00e9rica de tais<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00f5es e das combina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre<br \/>\nresultar\u00e1 um governo. Tudo isto \u00e9 verdade, mas \u00e9 igualmente verdade que a possibilidade de ac\u00e7\u00e3o<br \/>\ndemocr\u00e1tica come\u00e7a e acaba a\u00ed. O eleitor poder\u00e1 tirar do poder um governo que n\u00e3o lhe agrade e p\u00f4r<br \/>\noutro no seu lugar, mas o seu voto n\u00e3o teve, n\u00e3o tem, nem nunca ter\u00e1 qualquer efeito vis\u00edvel sobre a<br \/>\n\u00fanica e real for\u00e7a que governa o mundo, e portanto o seu pa\u00eds e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao<br \/>\npoder econ\u00f3mico, em particular \u00e0 parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais<br \/>\nde acordo com estrat\u00e9gias de dom\u00ednio que nada t\u00eam que ver com aquele bem comum a que, por<br \/>\ndefini\u00e7\u00e3o, a democracia aspira. Todos sabemos que \u00e9 assim, e contudo, por uma esp\u00e9cie de automatismo<br \/>\nverbal e mental que n\u00e3o nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como<br \/>\nse se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas<br \/>\nritualizadas, os in\u00f3cuos passes e os gestos de uma esp\u00e9cie de missa laica. E n\u00e3o nos apercebemos, como<br \/>\nse para isso n\u00e3o bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal&nbsp;elegemos e de que somos portanto os primeiros respons\u00e1veis, se v\u00e3o tornando cada vez mais em meros<br \/>\n&#8220;comiss\u00e1rios pol\u00edticos&#8221; do poder econ\u00f3mico, com a objectiva miss\u00e3o de produzirem as leis que a esse<br \/>\npoder convierem, para depois, envolvidas no a\u00e7\u00facares da publicidade oficial e particular interessada,<br \/>\nserem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas<br \/>\nminorias eternamente descontentes&#8230;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"page\" title=\"Page 6\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\nQue fazer? Da literatura \u00e0 ecologia, da fuga das gal\u00e1xias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo \u00e0s<br \/>\ncongest\u00f5es do tr\u00e1fego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democr\u00e1tico, como se de um<br \/>\ndado definitivamente adquirido se tratasse, intoc\u00e1vel por natureza at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos, esse n\u00e3o<br \/>\nse discute. Ora, se n\u00e3o estou em erro, se n\u00e3o sou incapaz de somar dois e dois, ent\u00e3o, entre tantas outras<br \/>\ndiscuss\u00f5es necess\u00e1rias ou indispens\u00e1veis, \u00e9 urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover<br \/>\num debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decad\u00eancia, sobre a interven\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os<br \/>\nna vida pol\u00edtica e social, sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os Estados e o poder econ\u00f3mico e financeiro mundial,<br \/>\nsobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito \u00e0 felicidade e a uma exist\u00eancia<br \/>\ndigna, sobre as mis\u00e9rias e as esperan\u00e7as da humanidade, ou, falando com menos ret\u00f3rica, dos simples<br \/>\nseres humanos que a comp\u00f5em, um por um e todos juntos. N\u00e3o h\u00e1 pior engano do que o daquele que a si<br \/>\nmesmo se engana. E assim \u00e9 que estamos vivendo.\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nN\u00e3o tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de sil\u00eancio. O campon\u00eas<br \/>\nde Floren\u00e7a acaba de subir uma vez mais \u00e0 torre da igreja, o sino vai tocar. Ou\u00e7amo-lo, por favor.&#8221;<\/div>\n<p>\n<i>Jos\u00e9 Saramago<\/i><br \/>\n<i>18\/03\/2002&nbsp;<\/i><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto lido na cerim\u00f4nia de encerramento do F\u00f3rum Social Mundial 2002 \u201eI-Elemente I\u201c, 2010.&nbsp;Karl Otto G\u00f6tz &#8220;Come\u00e7arei por vos contar em brev\u00edssimas palavras um facto not\u00e1vel da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Floren\u00e7a h\u00e1 mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa aten\u00e7\u00e3o para este importante acontecimento hist\u00f3rico porque, ao contr\u00e1rio &hellip; <a href=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/10\/20\/este-mundo-da-injustica-globalizada\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Este mundo da injusti\u00e7a globalizada<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":290,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61"}],"collection":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":291,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61\/revisions\/291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}