{"id":690,"date":"2020-03-30T14:17:23","date_gmt":"2020-03-30T14:17:23","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/?p=690"},"modified":"2020-03-30T15:29:02","modified_gmt":"2020-03-30T15:29:02","slug":"day-14-a-house-a-home","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2020\/03\/30\/day-14-a-house-a-home\/","title":{"rendered":"A house, a home &#8211; Day 14"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"868\" height=\"602\" src=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Bildschirmfoto-2020-03-30-um-15.57.33.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-695\" srcset=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Bildschirmfoto-2020-03-30-um-15.57.33.png 868w, https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Bildschirmfoto-2020-03-30-um-15.57.33-300x208.png 300w, https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Bildschirmfoto-2020-03-30-um-15.57.33-768x533.png 768w\" sizes=\"(max-width: 868px) 100vw, 868px\" \/><figcaption>Frontier &#8211; Martha Graham \/ I.Noguchi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;A arquitectura glorifica e eterniza alguma coisa. Quando n\u00e3o h\u00e1 nada a glorificar, n\u00e3o h\u00e1 arquitectura.&#8221; &#8211; Ludwig Wittgenstein<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">As casas deixaram de cumprir o seu prop\u00f3sito. O acto de habitar n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dormir com um tecto em cima. Costuma-se designar os sem abrigo, como sem-tecto. Contudo, existe uma grande diferen\u00e7a entre a casa que abriga e aquela que proporciona domic\u00edlio.\n\nA primeira d\u00e1 conforto n\u00e3o s\u00f3 ao corpo, mas tamb\u00e9m ao esp\u00edrito. Dentro destas alojam-se pensamentos, guardam-se lembran\u00e7as, crescem os sonhos, desenvolvem-se rela\u00e7\u00f5es e cuida-se do corpo e da psique. J\u00e1 a segunda resume-se a oferecer uma cobertura, mais um menos est\u00e9tica, para as intemp\u00e9ries (naturais e sociais). Como conseguinte, nesta \u00faltima n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar, nem desenvolvermo-nos como indiv\u00edduos singulares. Para o ser que frue estes espa\u00e7os o \u00fanico desejo, \u00e9 a fuga. Fuga para o espa\u00e7o exterior onde procura incessantemente um ref\u00fagio consistente que o permita ancorar-se com o tempo e a mat\u00e9ria.\u00a0\n\n\u00a0O lar que antigamente abrigava a intimidade do seio familiar, as comemora\u00e7\u00f5es e padeceres, o desenvolvimento social do indiv\u00edduo, acontece hoje maioritariamente na rua. A nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo que advinha do acto de habitar est\u00e1 hoje distorcido, num eixo cartesiano - espa\u00e7o\/forma. \u00c9-nos negado o eixo on\u00edrico e temporal\u00a0 que envolve a nossa exist\u00eancia.\n\nTemos uma imagem id\u00edlica da fam\u00edlia \u00e0 volta de uma mesa, mas quantas delas ainda se re\u00fanem? A pergunta ser\u00e1 ainda, quantas casas permitem ainda essa viv\u00eancia? Em s\u00e9culos passados o acto de receber significava fazer parte da sociedade. Dentro de sal\u00f5es e \u00e0 mesa, as mentes mais brilhantes da nossa hist\u00f3ria, privaram, desenvolveram-se e deixaram manifesta\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia. Basta para isso pensarmos nos escritos de Proust, Tolstoi, Dostoievski entre outros. As descri\u00e7\u00f5es detalhadas dos c\u00f4modos n\u00e3o s\u00f3 nos oferecem o sentimento de habitar, mas interligam a ess\u00eancia do lugar \u00e0 alma do habitante. O espa\u00e7o edificado \u00e9 uma prolonga\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia metaf\u00edsica e corp\u00f3rea daquele que o habita.<\/pre>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;<em>Em seus mil alv\u00e9olos, o espa\u00e7o ret\u00e9m o tempo comprimido. \u00c9 essa a fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o [\u2026]. Aqui o espa\u00e7o \u00e9 tudo, pois o tempo j\u00e1 n\u00e3o anima a mem\u00f3ria. A mem\u00f3ria \u2013 coisa estranha! \u2013 n\u00e3o registra a dura\u00e7\u00e3o concreta, a dura\u00e7\u00e3o no sentido bergsoniano. N\u00e3o podemos reviver as dura\u00e7\u00f5es abolidas. S\u00f3 podemos pens\u00e1-las, pens\u00e1-las na linha de um tempo abstrato privado de qualquer espessura. \u00c9 pelo espa\u00e7o, \u00e9 no espa\u00e7o que encontramos os belos f\u00f3sseis de dura\u00e7\u00e3o concretizados por longas perman\u00eancias<\/em>&#8221; &#8211; G. Bachelard<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">Onde se alicer\u00e7a nos tempos que correm a nossa mem\u00f3ria?\n\nNum restaurante , sala de aula, gin\u00e1sio, parque, online? Enquanto as nossas habita\u00e7\u00f5es ficam obsoletas das suas antigas incumb\u00eancias e diminuem de escala, de diversidade e criatividade; d\u00e1-se ao lugares comuns, a espa\u00e7os sem rosto a \u00e1rdua tarefa de n\u00f3s acalentar, proteger e definir. Esperamos deveras que o ber\u00e7o de cada ser humano \u00fanico e irrepet\u00edvel seja exposto em pra\u00e7a p\u00fablica? N\u00e3o ser\u00e1 que o fazemos j\u00e1 com as redes sociais?\n\nComo \u00e9 que isso \u00e9 poss\u00edvel?\n\nO acto de habitar \u00e9 muito mais que o espa\u00e7o onde temos os nossos bens, \u00e9 mais que um conjunto de m\u00f3veis, eletrodom\u00e9sticos e sucess\u00e3o de espa\u00e7os. A casa refugia, cria e modela quem somos. Qual de n\u00f3s n\u00e3o tem lembran\u00e7as da sua casa de inf\u00e2ncia? <\/pre>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;<em>Logicamente, \u00e9 gra\u00e7as \u00e0 casa que um grande n\u00famero das nossas lembran\u00e7as est\u00e3o guardadas, e quando a casa se complica um pouco, quando tem um por\u00e3o e um s\u00f3t\u00e3o, cantos e corredores, as nossas lembran\u00e7as t\u00eam ref\u00fagios cada vez mais bem caracterizados. A eles regressamos durante toda a vida, em nossos devaneios.<\/em>&#8221; <\/p><p>&#8211; G. Bachelard<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">O lar da inf\u00e2ncia continha o nosso mundo interior. Foi nele que desenvolvemos ideias, conceitos mentais e sentimentais. Parte do somos \u00e9 uma projec\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias que temos e experimentamos dentro desse ref\u00fagio. A casa \u00e9 a topografia do nosso \u00edntimo, habitar \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o de identidade \u00e9 a forma como nos relacionamos com o mundo.\n\nAinda oferecemos isso as crian\u00e7as?\n\nA crian\u00e7a de hoje tem a mesma liga\u00e7\u00e3o com o seu lugar de viv\u00eancia, com o interior, com a protec\u00e7\u00e3o do seu \u00edntimo? No teatro da mem\u00f3ria onde ficar\u00e1 a casa da sua inf\u00e2ncia?\u00a0\n\nA arquitectura deixou de construir e oferecer o sentimento de lar para construir imagens. Imagens que vendem objectos, organiza\u00e7\u00e3o espacial e um determinado estrato social. Prova disso \u00e9 o abandono do uso do desenho livre (esquisso), da maquete (que permite ao seu futuro habitante sonhar a viv\u00eancia) pela predile\u00e7\u00e3o de\u00a0 imagens computadorizadas (3D). Deixamos de desenhar o lar (se \u00e9 que alguma vez o conseguimos concretizar). Ele requer tempo e contacto humano, dois bens demasiado caros no mundo veloz em que vivemos.<\/pre>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8221; Quando comparamos os projetos do in\u00edcio do modernismo com os projetos de vanguarda contempor\u00e2neos, podemos perceber imediatamente uma perda de empatia pelo habitante. Em vez de ser motivada por uma vis\u00e3o social do arquiteto ou por uma concep\u00e7\u00e3o de vida pautada pela empatia, a&nbsp;arquitectura tornou-se autorreferencial e autista.&#8221; &#8211; J.Pallasmaa<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">De que vale desenhar tantos espa\u00e7os amorfos? Olhando-os de fora oferecem a harmonia est\u00e9tica do todo, mas por dentro parecem n\u00e3o possuir alma. S\u00e3o r\u00e9plicas indiferentes aos males, as alegrias e sonhos de quem os habita. Como poderiam ser diferentes? As habita\u00e7\u00f5es actuais s\u00e3o bens consum\u00edveis, possuem data de validade. N\u00e3o foram feitas para o futuro, n\u00e3o s\u00e3o pensadas para albergar as gera\u00e7\u00f5es vindouras. A casa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o bem mais querido, n\u00e3o cont\u00e9m a vida e alma dos seus habitantes.\n\nSe as paredes pudessem falar, o que contariam? Fragmentos de exist\u00eancias, est\u00f3rias incompreens\u00edveis e transit\u00f3rias.\u00a0 A casa que outrora foi abrigo desenha-se agora como inv\u00f3lucro do vazio.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A arquitectura glorifica e eterniza alguma coisa. 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