{"id":726,"date":"2020-06-02T13:31:53","date_gmt":"2020-06-02T13:31:53","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/?p=726"},"modified":"2022-02-11T12:51:23","modified_gmt":"2022-02-11T12:51:23","slug":"o-pais-dos-cegos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2020\/06\/02\/o-pais-dos-cegos\/","title":{"rendered":"O pa\u00eds dos cegos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"861\" height=\"787\" src=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Bildschirmfoto-2022-02-11-um-13.51.01.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-783\" srcset=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Bildschirmfoto-2022-02-11-um-13.51.01.png 861w, https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Bildschirmfoto-2022-02-11-um-13.51.01-300x274.png 300w, https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Bildschirmfoto-2022-02-11-um-13.51.01-768x702.png 768w\" sizes=\"(max-width: 861px) 100vw, 861px\" \/><figcaption>Ciel-Terre &#8211; Bang, Hai Ja. 2011<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">A situa\u00e7\u00e3o actual faz-me pensar no Pa\u00eds dos cegos de H.G.Wells (bem para quem n\u00e3o leu \u00e9 melhor parar aqui e voltar mais tarde).\nV\u00e1rias vezes me senti na aldeia dos cegos. Ap\u00f3s dez anos da forma\u00e7\u00e3o requerida a minha vis\u00e3o arquitect\u00f3nica \u00e9 basicamente oposta aquela na qual fui instru\u00edda. Por vezes penso que fosse melhor chegar a um ponto de consenso, a um territ\u00f3rio comum. Mas como, quando todas as fibras do meu ser me orientam para outra direc\u00e7\u00e3o?\nN\u00e3o caber nas conven\u00e7\u00f5es, n\u00e3o aceitar seguir o que nos dizem e ensinaram, n\u00e3o \u00e9 ser intransigente ou rude, \u00e9 apenas voltar a refazer as perguntas que poucas gera\u00e7\u00f5es tem a coragem de fazer.\n\nS\u00f3 pode ser mesmo assim?\nIsto n\u00e3o pode ser feito de outra maneira?\nTemos que continuar a perpetuar este sistema?\n\nSim, significa chocalhar as coisas, sair da zona de conforto e \u00e9 por isso que pessoas que ousam questionar e repensar o que lhe foi dito s\u00e3o vistas como <em>personae non gratae<\/em>.\nN\u00e3o \u00e9 o mesmo que acontece na aldeia dos cegos? Quando Nunez chega, primeiro pensa em dominar aquela aldeia de cegos, acha-se superior a eles, ele pode ver, eles n\u00e3o. Mas com o passar do tempo, eles como maioria conseguem subjug\u00e1-lo \u00e0 sua vontade at\u00e9 ao ponto de ele equacionar perder a vis\u00e3o para ser um deles. Tamb\u00e9m n\u00e3o o fazemos?\n\nOlhamos para os outros, para aqueles que achamos diferentes de n\u00f3s, queremos que eles vistam como n\u00f3s, pensem como n\u00f3s, vivam como n\u00f3s. N\u00e3o aceitamos que realidades diversas possam ser bem-vindas, que entrar numa conversa de mente aberta n\u00e3o nos faz perder a identidade. At\u00e9 muitos daqueles que v\u00eaem o outro lado do mundo ainda se mant\u00eam na ideia mundana das coisas. Porque ver \u00e9 diferente de olhar! O olhar requer um foco de aten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estamos dispostos a dispensar neste mundo veloz.\n\nDesde crian\u00e7as somos moldados para sermos como os outros. Desde pequena que havia choros quase todas as refei\u00e7\u00f5es em casa dos meus pais, porque me recusava a comer a carne. A forma de me alimentarem, era a mesma como eles tinham crescido, logo n\u00e3o viam uma possibilidade diferente. Eu tinha que me moldar e aceitar a ordem pr\u00e9-estabelecida. Foi preciso crescer, tornar-me na minha pr\u00f3pria pessoa&nbsp; para que a carne deixa-se de estar no meu prato. Moldar e ser moldado, redefinir os pensamentos para que se enquadrem na sociedade onde vivemos.&nbsp;\n\nAcontece tamb\u00e9m nas escolas, com os professores. Foram poucos os que durante o tempo de aprendizagem vieram ao meu encontro. \u00c9 um longo processo conseguir se abster, subjugar o ego, para que a outra mensagem possa passar. N\u00e3o era o que eles pensavam da arquitectura, mas o que eu pensava dela, n\u00e3o era a interpreta\u00e7\u00e3o que eles tinham do mundo, mas a que eu tinha atrav\u00e9s de an\u00e1lises, refer\u00eancias e sensibilidades.\n\nCada um de n\u00f3s possui a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e como consequ\u00eancia vis\u00e3o do mundo. H\u00e1 pilares basilares na arquitectura, mas a partir da\u00ed cada um navega na arquitectura e no mundo, com a bagagem que foi adquirindo ao longo do tempo. N\u00e3o \u00e9 por isso cruel, pedirem a seres \u00fanicos para trabalharem como m\u00e1quinas, que apenas manuseiem m\u00e1quinas? Cada um de n\u00f3s brilha quando est\u00e1 no lugar certo a fazer aquilo que lhe \u00e9 destinado, acredito piamente nisso. Esse qualidade confere significado ao que fazemos e \u00e0 pr\u00f3pria vida.\n<em>\u201cA qualidade \u00e9 o respeito pelo povo\u201d<\/em>, uma afirma\u00e7\u00e3o do Che Guevara que eu acrescentaria, a qualidade deveria ser o respeito pela vida.\n\nN\u00e3o \u00e9 porque a maioria pensa de determinado modo que se deva cegar perante o sentimento que se possui e abafar os valores nos quais desabruchamos.\n\u00c9 algo \u00edntimo, viver. \n\n<em><em>\u201cA minha liberdade acaba onde come\u00e7a a do outro\u201d<\/em> 1, sim, mas isso significa que toda a ac\u00e7\u00e3o tem uma rea\u00e7\u00e3o. A&nbsp; nossa vis\u00e3o do mundo \u00e9 ampliada, alterada e completada na intera\u00e7\u00e3o com o outro. Por isso, a nossa constru\u00e7\u00e3o do mundo deve ser feita de respeito e toler\u00e2ncia, como num tango. Por vezes \u00e9 preciso recuar para deixar o outro florescer.No final todos brilham sob a mesma luz - a da igualdade na unicidade da vida.<\/em>\n\nFinalmente Bogot\u00e1 (como lhe chamavam os cegos) num \u00faltimo momento de lucidez prefere a luz, prefere a travessia, que talvez o leve \u00e0 morte, que viver uma vida acomodada na escurid\u00e3o. N\u00e3o ser\u00e1 um fim para todos n\u00f3s?\nAinda que doa olhar, n\u00e3o ser\u00e1 prefer\u00edvel a viver uma vida longa e amorfa na ignor\u00e2ncia de velhos estigmas?\n\n<em>\"The opposite of courage in our society is not cowardice, it's conformity.\"<\/em>\n\u2015 Rollo May\n\n\n\n1Herbert Spencer<\/pre>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A situa\u00e7\u00e3o actual faz-me pensar no Pa\u00eds dos cegos de H.G.Wells (bem para quem n\u00e3o leu \u00e9 melhor parar aqui e voltar mais tarde). V\u00e1rias vezes me senti na aldeia dos cegos. 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