{"id":738,"date":"2020-11-02T14:11:50","date_gmt":"2020-11-02T14:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/?p=738"},"modified":"2020-11-02T14:11:50","modified_gmt":"2020-11-02T14:11:50","slug":"2020-hell-of-a-life","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2020\/11\/02\/2020-hell-of-a-life\/","title":{"rendered":"2020 &#8211; hell of a life"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Escrevi o texto que se segue h\u00e1 quase tr\u00eas meses atr\u00e1s, \u00e9 hoje ainda mais premente que ent\u00e3o. Os n\u00fameros com que lidamos hoje, a tal segunda vaga, s\u00e3o fruto de qu\u00ea?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para que serviram os lockdowns se era para uns meses depois deitar a toalha ao ch\u00e3o? Medidas e mais medidas que ningu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m controla! M\u00e1scaras de pano feitas em casa, m\u00e1scaras a cobrir s\u00f3 a boca, idiotas que se acham invenc\u00edveis sem ela, eventos, festas privadas\u2026 De que serviu o lockdown? Para qu\u00ea come\u00e7ar um maratona se n\u00e3o havia inten\u00e7\u00e3o de acabar? A sociedade actual vira as costas sempre que fica dif\u00edcil, no capricho das suas vontades vira as costas at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p>A economia pode colapsar? <\/p>\n\n\n\n<p>Fa\u00e7o-vos uma pergunta escandalosa: quem \u00e9 que inventou a economia? Agora fa\u00e7o-vos outra: quem \u00e9 que inventou a vida, quem nos deu a centelha que nos permite existir? Qual delas \u00e9 que pode ser mais f\u00e1cilmente reajustada, reinventada e reinterpretada, sem danos se assim o quisermos? <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s somos os mestres do nosso pr\u00f3prio destino, mas n\u00e3o o somos da vida!<\/p>\n\n\n\n<p>Na primavera as pessoas tremiam de medo, mas \u00e9 no outono que mora o perigo. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"441\" src=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/3097895977_9af4546466.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-265\" srcset=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/3097895977_9af4546466.jpeg 640w, https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/3097895977_9af4546466-300x207.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>My friend, mon ami, watashi no y\u016bjin<\/p>\n\n\n\n<p>2020 it&#8217;s been hell!<\/p>\n\n\n\n<p>Assim \u00e9 como facilmente poderia come\u00e7ar este texto, quando penso nos sete meses vividos deste ano. Come\u00e7amos por ficar confinados a vermos a vida passar pela janela. \u201cIsto passa\u201d diz\u00edamos todos baixinho, \u201cQuando chegar o ver\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nada\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E c\u00e1 estamos n\u00f3s, no ver\u00e3o! Sa\u00edmos de casa com m\u00e1scara, pensamos (alguns) 3-4 vezes se o s\u00edtio onde queremos ir, se temos mesmo que ir. Comer fora? E se a pessoa que me atender, aquela que cozinhar estiver doente e n\u00e3o sabe?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 um dia de calor tremendo, ir nadar?<\/p>\n\n\n\n<p>E se uma, apenas uma das pessoa que l\u00e1 estiver estiver infectada?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sobrevivo a isso? Eu sobrevivo, claro. Sobrevivo mesmo?<\/p>\n\n\n\n<p>Dor de cabe\u00e7a, um pouco de tosse na rua e faz-se cambalhotas interiores imposs\u00edveis para n\u00e3o fazer um \u00fanico movimento suspeito. N\u00e3o se quer ser alvo de indaga\u00e7\u00e3o, Todos, qualquer um \u00e9 um alvo em potencial. N\u00e3o, eu n\u00e3o tenho Covid, acho que n\u00e3o tenho. Sinto-me bem.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 podes n\u00e3o ter o tal v\u00edrus, o maldito do Corona que n\u00e3o larga a manchete dos jornais. Destruidor da vida quotidiana, da economia, de sonhos, de esperan\u00e7a, da vida\u2026 Ele \u00e9 hoje o culpado de tudo, culpado at\u00e9 da culpa existir. Mas n\u00e3o foi ele que criou as nossas economias insustent\u00e1veis, nem foi o realizador desta vida absurdamente r\u00e1pida e consumista que levamos. Se h\u00e1 culpa que ele pode carregar \u00e9 por deixar os nossos corpos fracos, \u00e9 por tirar de n\u00f3s entes queridos, \u00e9 s\u00f3 essa a factura que lhe podemos passar. Se \u00e9 grande? \u00c9 imensa!<\/p>\n\n\n\n<p>Agora para aqueles que jogam na roleta russa, com a vida deles e dos outros, \u00e9 o v\u00edrus que tem culpa? N\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as coisas est\u00e3o mal organizadas, h\u00e1 um limite para a culpa que o v\u00edrus pode ter. O v\u00edrus faz a sua parte, mas o grosso \u00e9 feito por n\u00f3s e pela nossa falta de organiza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha linda e maravilhosa gata de 13 anos morreu h\u00e1 pouco tempo. O Covid teve culpa? Nunca saberei. A verdade \u00e9 que o facto de terem fechado tudo, de n\u00e3o quererem saber de mais nada teve uma boa parte nisso. De repente todas as outras doen\u00e7as parecem ser irrelevantes, todas a vidas que n\u00e3o sejam humanas tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O meu mundo desmoronou a partir da\u00ed, a partir do v\u00edrus? N\u00e3o, a partir do dia em que a perdi. Vi mais salas de urg\u00eancias e m\u00e9dicos em um m\u00eas que durante a minha vida inteira. Ainda assim qualquer suspeita, qualquer pequena dor que pode ser um milh\u00e3o de outras coisas l\u00e1 se vai parar, ao lugar onde de facto \u00e9 prov\u00e1vel que possamos contrair o Covid 19. <\/p>\n\n\n\n<p>Fui recebida com guarda cerrada, como criminosos prestes a ser sentenciados. Ficamos al\u00ed, com pap\u00e9is na m\u00e3o a olhar uns para os outros, questionei-me se aquela pessoa duas cadeiras ao lado, que parecia estar a arder em febre seria o meu pesadelo futuro. Esperar, enfiarem-nos um cotonete de um tamanho medonho no nariz, sofrer. Primeiros resultados negativos. Ainda assim, ficar em isolamento, ver a vida acontecer do lado de fora. Todo este stress, f\u00edsico e emocional, com baixa de dois dias, n\u00e3o mais de dois dias, porque o meu dever e de todos \u00e9 trabalhar. \u00c9 continuar nesta roda viva, se formos morrer de qualquer v\u00edrus, este ou futuro que seja para contribuir economicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Se morrer amanh\u00e3, porque a economia n\u00e3o pode parar, porque a gan\u00e2ncia de destruir o planeta n\u00e3o pode cessar, pelo que serei lembrada?<\/p>\n\n\n\n<p>Pelos objectos que trazia na carteira, pelos sonhos pendurados na parede que nunca chegaram a acontecer?<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo-vos daqui, n\u00e3o do isolamento, mas de uma vida pseudo normal, porque o teste deu negativo. O tratamento real da doen\u00e7a que provocou os sintomas ficou para depois, ficou para quando a minha vida, a minha presen\u00e7a n\u00e3o represente uma amea\u00e7a para outros. A vida dos outros representa uma amea\u00e7a \u00e0 minha? Quem sabe!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 cansativo olhar \u00e0 volta e ver no pr\u00f3ximo sempre um potencial perigo. Viver assim, n\u00e3o \u00e9 viver, \u00e9 uma sobreviv\u00eancia cavernosa. Kant filosofou sobre a necessidade absoluta de seguirmos uma moral elevada, uma conduta de responsabilidade perante o outro. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201co homem est\u00e1 condenado a ser livre\u201d de Satre, \u00e9 uma liberdade racionalista. Esta liberdade faz muita falta neste dias sombrios, em que a vontade caprichosa do outro, a irresponsabilidade do outro, faz de todos alvos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim t\u00e3o dif\u00edcil adiar uma viagem, n\u00e3o ir aquela festa, usar a m\u00e1scara como deve ser (tapar s\u00f3 a boca n\u00e3o funciona, lamento), n\u00e3o estar em cima do outro, n\u00e3o fazer do supermercado a pra\u00e7a das conversas f\u00fateis? Ser\u00e1 isto pior que o labor de S\u00edsifo? N\u00e3o me parece. Ent\u00e3o porque n\u00e3o somos capazes? <\/p>\n\n\n\n<p>Existe um eu no n\u00f3s, mas dificilmente um n\u00f3s no eu. Gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es mimadas e ego\u00edstas que acham que a sua sobreviv\u00eancia depende apenas delas mesmas, que as suas ac\u00e7\u00f5es dizem respeito apenas a elas. O v\u00edrus Corona, tal como a peste, a febre espanhola e outros que tais p\u00f5e-nos cara a cara com a nossa maldi\u00e7\u00e3o &#8211; o ego\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando o Homem \u201c<em>se abst\u00e9m de pensar e deposita a confian\u00e7a em velhas ou mesmo novas verdades \u2013 lan\u00e7ando-as como se fossem moedas com que se avaliassem todas as experi\u00eancias, a pr\u00f3pria humanidade perde a vitalidade<\/em>\u201d, &#8211; Hanna Arendt<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevi o texto que se segue h\u00e1 quase tr\u00eas meses atr\u00e1s, \u00e9 hoje ainda mais premente que ent\u00e3o. Os n\u00fameros com que lidamos hoje, a tal segunda vaga, s\u00e3o fruto de qu\u00ea?&nbsp; Para que serviram os lockdowns se era para uns meses depois deitar a toalha ao ch\u00e3o? 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