{"id":771,"date":"2022-04-08T10:05:23","date_gmt":"2022-04-08T10:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/?p=771"},"modified":"2022-04-08T10:05:23","modified_gmt":"2022-04-08T10:05:23","slug":"saudosa-maloca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2022\/04\/08\/saudosa-maloca\/","title":{"rendered":"Saudosa Maloca"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Elis Regina - Saudosa Maloca (1978)\" width=\"660\" height=\"495\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mOaV9tff8AI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img src=\"https:\/\/miro.medium.com\/max\/700\/1*Ttsq47vooi2i81aE3s9QYg.jpeg\" alt=\"\"\/><figcaption>MAXXI Foundation 1960 \u2014<a href=\"https:\/\/www.wallpaper.com\/architecture\/carlo-scarpa-japanese-influences-explored-at-the-maxxi-foundation-in-rome\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">&nbsp;Carlo Scarpa<\/a><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p id=\"e26c\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=mOaV9tff8AI\" rel=\"noreferrer noopener\" target=\"_blank\">Saudosa Maloca<\/a>&nbsp;de Adoniran Barbosa \u00e9 provavelmente uma das m\u00fasicas mais tristes que qualquer arquitecto pode ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c585\">A m\u00fasica come\u00e7a, com um narrador a fazer-nos notar, que no lugar daquele edif\u00edcio novo e imponente outrora existiu um palacete abandonado. Vivia l\u00e1 com mais dois amigos e um dia o propriet\u00e1rio demoliu o edif\u00edcio. Os habitantes clandestinos, da casa que ningu\u00e9m queria, ficaram desabrigados, for\u00e7ados a dormir no ch\u00e3o de um jardim.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"3857\">Quando ou\u00e7o esta m\u00fasica a primeira coisa que me vem \u00e0 mente \u00e9 a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, mal da nossa sociedade moderna, que olha para os terrenos apenas como um meio de obter lucro. Massifica-se quarteir\u00f5es, empilham-se vidas, para que alguns, poucos, possam viver alienados dos outros e ainda assim n\u00e3o saibam o significado de habitar. Esse mesmo desejo de lucro desenfreado torna-nos cegos para aqueles que tentam subsistir num mundo onde n\u00e3o se encaixam. Os sem abrigo do mundo, os desajustados da sociedade s\u00e3o facilmente encarados como parte da paisagem, verdes como a relva, cinzentos como os v\u00e3os das escadas, fundidos com fundo, deixam de existir.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ad09\">A m\u00fasica continua, \u201ccada t\u00e1bua que ca\u00eda do\u00eda no cora\u00e7\u00e3o\u201d, a rela\u00e7\u00e3o sentimental que tinham com a casa, carinhosamente apelidada de Maloca, \u00e9 profundamente tocante.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"c8ef\">Maloca \u00e9 o nome dado a um tipo de cabana dos povos ind\u00edgenas da amaz\u00f4nia, sin\u00f4nimo de singularidade e mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m de uni\u00e3o. Sentimentos raros de atribuir a constru\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o nos tempos que correm. Hoje na maioria das vezes as pessoas tratam as habita\u00e7\u00f5es como dormit\u00f3rios, os pr\u00f3prios arquitectos j\u00e1 desenham com a maior naturalidade do mundo os apartamentos como quartos de hot\u00e9is. Os habitantes do inabit\u00e1vel passam de lugar em lugar, sem estabelecer qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o emocional com os espa\u00e7os que habitam. Esses mesmos espa\u00e7os parecem j\u00e1 terem sido desenhados sem alma, como tal, \u00e9 quase imposs\u00edvel preench\u00ea-los com o que quer que seja.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"68d6\">Contudo na m\u00fasica habitantes ilegais haviam dado nome ao palacete, transformando uma constru\u00e7\u00e3o abandonada, num lar, num espa\u00e7o de sentimentos e lembran\u00e7as. Ela era deles, eles eram dela, pertenciam uns aos outros, a rela\u00e7\u00e3o transpunha a barreiras e conceitos filos\u00f3ficos da mat\u00e9ria inanimada. O fim da m\u00fasica fala-nos sobre isso, cantam para ela, para a sua saudosa Maloca. O lugar onde viveram dias felizes, abrigados e de esperan\u00e7a. Maloca n\u00e3o era apenas uma constru\u00e7\u00e3o, uma sucess\u00e3o de espa\u00e7os, era uma entidade querida, uma amiga, uma presen\u00e7a que confortava.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ef8a\">Onde mora a esperan\u00e7a e a felicidade nos edif\u00edcios que constru\u00edmos hoje?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a291\">Que rela\u00e7\u00e3o estabelecemos com as quatro paredes onde existimos?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"5853\">Quem lhes vai tecer louvores quando desaparecerem, quem sente ainda que as casas permitem a vida existir, quem fica ainda de cora\u00e7\u00e3o pesado por perder o seu abrigo?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"451e\">Quando vejo ou leio not\u00edcias em que as pessoas perderam o espa\u00e7o onde moravam, ou\u00e7o-as a dizer em l\u00e1grimas \u201cperdi tudo o que tinha\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"65f6\">O que significa isso? Choram os bens materiais, ou haver\u00e1 alguma parte delas que tamb\u00e9m chora a perda desse ente querido que lhe deu prote\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p id=\"a2af\">Quando era crian\u00e7a, na aldeia onde os meus av\u00f3s moravam, uma senhora de idade perdeu a casa para um inc\u00eandio.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"abb4\">Ela repetia em pranto \u201cA minha casinha, a minha casinha.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p id=\"1f64\">Haveria nessa casinha, algo mais que dormir, comer e arrumar os objectos que acumulou durante a vida? Acho que sim, a repeti\u00e7\u00e3o \u201ca minha casinha\u201d, quase como um mantra, punha por palavras a perda de algo maior, que lhe era profundamente querido.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"d619\">A saudosa Maloca representa esses espa\u00e7os, aqueles onde n\u00e3o s\u00f3 onde existimos, mas onde nos transformamos atrav\u00e9s deles. \u00c9 imperativo que o mundo volte a ser povoado por essas constru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"ce1d\"><em>\u201cEstas casas sem brilho \u2014 n\u00e3o sei o que s\u00e3o, n\u00e3o sei como as pintam.V\u00ea-se que est\u00e3o todas mortas.\u201d \u2014 Peter Zumthor, Atmosferas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saudosa Maloca&nbsp;de Adoniran Barbosa \u00e9 provavelmente uma das m\u00fasicas mais tristes que qualquer arquitecto pode ouvir. A m\u00fasica come\u00e7a, com um narrador a fazer-nos notar, que no lugar daquele edif\u00edcio novo e imponente outrora existiu um palacete abandonado. Vivia l\u00e1 com mais dois amigos e um dia o propriet\u00e1rio demoliu o edif\u00edcio. Os habitantes clandestinos, &hellip; <a href=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2022\/04\/08\/saudosa-maloca\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Saudosa Maloca<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3,66],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/771"}],"collection":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=771"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/771\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":789,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/771\/revisions\/789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}