{"id":80,"date":"2015-07-23T15:39:00","date_gmt":"2015-07-23T15:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/07\/23\/os-olhos-que-falava\/"},"modified":"2018-08-07T17:50:24","modified_gmt":"2018-08-07T17:50:24","slug":"os-olhos-que-falava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/07\/23\/os-olhos-que-falava\/","title":{"rendered":"Os olhos que falavam"},"content":{"rendered":"<table align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" class=\"tr-caption-container\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-03QZSiY62g4\/VbEJioSfDkI\/AAAAAAAABZQ\/zLWBKwDuF2s\/s1600\/4723284730_a48baa3089_o.jpg\" imageanchor=\"1\" style=\"margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"425\" src=\"http:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/4723284730_a48baa3089_o.jpg\" width=\"640\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"tr-caption\" style=\"text-align: center;\">\u00caxodo, Sebasti\u00e3o Salgado<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\">\n<\/div>\n<div class=\"separator\" style=\"clear: both; text-align: center;\">\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nAvistei ao longe uma, duas, tr\u00eas pessoas de cor, que se transformaram num grupo de jovens rapazes \u00e0 medida que o autocarro prosseguia. Pareciam&nbsp;descontra\u00eddos, suspeito que os mais velhos desvendavam a um mais novo algo precioso sobre a arte de viver.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\nEstava a passar por um campo de&nbsp;refugiados&nbsp;europeu, apercebi-me quando avistei o&nbsp;t\u00edpico arame farpado que ladeava o&nbsp;edif\u00edcio.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nRefugiados do Mediterr\u00e2neo,&nbsp;nunca pensei encontra-los&nbsp;ali.&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"color: #222222;\">\n<div style=\"text-align: justify;\">\nO autocarro parou e&nbsp;dois homens, um jovem e outro de meia idade, ou talvez tenham sido as&nbsp;intemp\u00e9ries&nbsp;da&nbsp;exist\u00eancia sofrida a dar-lhe o semblante&nbsp;vivido, aproximaram-se.<\/div>\n<div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nOlhavam-nos com ar vazio, sem vergonha, sem directrizes, sem \u00e9tica de conduta, olhavam-nos, de forma fixa sem que nenhum sentimento fosse decifr\u00e1vel.&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nOlhei de volta, n\u00e3o para o homem mais jovem que&nbsp;possu\u00eda todas as&nbsp;caracter\u00edsticas&nbsp;pr\u00f3prias da sua idade, o galanteio f\u00e1cil, a postura que lhes \u00e9 t\u00e3o&nbsp;peculiar e tribal, da conquista.&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nN\u00e3o, olhei para as linhas do rosto do homem que estava do outro lado do vidro, para o dente da frente partido, para os olhos negros e durante muito tempo, nesses poucos minutos que se tornaram s\u00e9culos questionei e imaginei a vida de algu\u00e9m que estava a menos de meio metro do meu rosto, ambos protegidos por uma barreira transparente.<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nO autocarro apitou para partir e ent\u00e3o assim do nada, ele levantou a m\u00e3o e fez um aceno de despedida, com o olhar&nbsp;posto para al\u00e9m de mim, um gesto de adeus, como se um mar de caminhos se fechassem naquele mesmo instante.<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nEnt\u00e3o os olhos falaram, contaram-me de como uns escassos&nbsp;quil\u00f4metros podem significar nunca mais, como o tacto visual pode-se tornar na \u00faltima demonstra\u00e7\u00e3o de afecto. Mostraram-me que h\u00e1 dist\u00e2ncias no planeta que significam viajar at\u00e9 outras&nbsp;gal\u00e1xias, foi-me desvendado a d\u00e1diva do momento presente, a dor da partida, num autocarro que tinha a esta\u00e7\u00e3o final ap\u00f3s uns meros 10 minutos.<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nQuando me levantei percebi que aquele aceno tinha sido para uma senhora, com um filho pequeno junto ao peito.<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nDepois de tantas tormentas, tantos desafios, vivem presos no interior de paredes bem&nbsp;constru\u00eddas, ou protegidos dos sentimentos dos senhores de boa \u00edndole.&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nEm terreno desconhecido, eles que fintaram a morte com nada, fazem acenos de Adeus, como se a morte, ou pior o esquecimento fosse dobrar a esquina a qualquer momento e todos se perdessem sem reencontro poss\u00edvel.&nbsp;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<i><br \/><\/i><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00caxodo, Sebasti\u00e3o Salgado Avistei ao longe uma, duas, tr\u00eas pessoas de cor, que se transformaram num grupo de jovens rapazes \u00e0 medida que o autocarro prosseguia. Pareciam&nbsp;descontra\u00eddos, suspeito que os mais velhos desvendavam a um mais novo algo precioso sobre a arte de viver.&nbsp; Estava a passar por um campo de&nbsp;refugiados&nbsp;europeu, apercebi-me quando avistei o&nbsp;t\u00edpico &hellip; <a href=\"https:\/\/llagnes.com\/blog\/2015\/07\/23\/os-olhos-que-falava\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Os olhos que falavam<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80"}],"collection":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":330,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80\/revisions\/330"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/llagnes.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}